INDIE SONGWRITER
SOBRE MIM
Deveria ter uns 5 ou 6 anos. Uma das formas que o meu pai encontrou de me manter quieto e sossegado foi sentar-me num sofá da sala, enfiar-me uns headphones na cabeça ligados ao seu belo gravador de fitas - com som stereo, ficando eu ali prostrado, navegando nos meus sonhos e fantasias de criança, escutando música maravilhosa por horas a fio. Dessa forma, levei injeções compulsivas - de bom gosto - de Jazz, Blues, Big Band, Rock e algum Pop dos anos 70, tudo influencias que haveriam de marcar os meus gostos musicais pela minha vida fora.
Os headphones, quando bem acompanhados de olhos fechados e imobilização total, têm esta capacidade de nos fazer viajar por mundos alternativos, universos desconhecidos, realidades paralelas, idades por cumprir, futuros e passados onde podemos pousar num minuto e regressar no seguinte.
Os meus pais ofereceram-me uma viola aos 22 anos. Teria dado jeito ter começado a praticar desde os 5, mas mais vale tarde que nunca! Contudo, numa primeira instância, fiquei absolutamente convencido que NUNCA iria conseguir tocar nada de jeito naquele instrumento. Isto porque, qualquer acorde que tentasse tocar, por mais simples que fosse, parecia possível apenas e só por contorcionistas. Por mais que revirasse os dedos não havia modo de acertar com os dedos nos devidos trastes. Pelo que, durante muito tempo o som produzido durante os meus insistentes treinos e ensaios assemelhava-se ao ruído produzido por um gato louco a arranhar giz num quadro de ardósia.
Os meios à época eram escassos. Não havia cá internet nem apps. Um amigo emprestou-me um livrinho com o desenho dos acordes para viola e foi assim que pratiquei durante longos e duros meses (se não anos).
Até que um dia - milagre dos milagres - quando já nada o faria esperar - um acorde saiu-me bem. Um som límpido e harmonioso. As notas a casar umas com as outras. As cordas a bailar de mãos dadas. Uma vibração coerente e consistente que me percorreu o corpo de alto a baixo, provocando-me uma inexplicável (e nova) sensação de paz e bem-estar. Se já é bom ouvir música, tocar um instrumento que abraçamos colado à pele e fazer de ali soar algo bonito que ressoa diretamente no nosso corpo é para lá de maravilhoso. Creio que terá sido esse o momento em que nasceu em mim - não uma paixão pela música, mas muito mais que isso - uma verdadeira dependência da música. Para mim, tocar passou a ser uma necessidade imperativa. Raro é o dia em que não pego na viola, nem que seja só para dedilhar 3 notas.
Da viola à guitarra elétrica é um pulo. Depois é inevitável gastar uma porrada de dinheiro em pedais e pedaleiras, numa verdadeira conquista inebriante de sons e efeitos que nunca imaginei pudessem ter origem nos meus queridos dedinhos. NOTA: Não tenho unhas para tocar guitarra, porque tenho a mania de as cortar rente até ao sabugo.
Nos anos que se seguiram fui treinando e aprimorando a técnica. Nunca tive aulas. Tudo o que aprendi, aprendi sozinho. Não recomendo. Ter por perto quem nos possa ensinar reduz dramaticamente a curva de aprendizagem. A verdade é que os estudos, numa primeira fase, e mais tarde a minha carreira profissional nas áreas de gestão não me libertaram muito tempo “livre” que pudesse dedicar à música.
Entretanto, surgiu a internet, e o youtube, e as apps, e etc etc… e tudo mudou. Agora, tocar um cover de uma música conhecida passou a estar à distância de apenas 2 ou 3 cliques. E tocar covers dá - indiscutivelmente - um gozo do caraças. Além de que constitui o ingrediente base para grandes festanças com amigos - tudo a cantar (à volta da fogueira) as tradicionais canções do “cançoneteiro geral”. Que belos momentos e que fantásticas recordações.
Em 2023, num dia de chuva, sem nada para fazer, e para combater o tédio, deu-me para ir passear a uma loja de música e, não resistindo a um impulso consumista, comprei um teclado. Vim para casa e (mais uma vez) comecei a aprender sozinho. Desta vez, com a ajuda de uma fantástica app de autoensino. Tal como a viola. Lá fui praticando com uma disciplina oriental. Durante 2 anos obriguei-me a praticar (nem que fossem apenas 15 minutos) TODOS os dias.
O piano é outro instrumento que produz um som absolutamente maravilhoso. Não uso quase nenhum outro dos muitos efeitos do teclado que comprei (e são mesmo muitos) porque é o som limpo do “classic piano” que mais me fascina.
De repente, depois de consumir muitos filminhos de YouTube, dei-me conta de que talvez não fosse muito muito difícil compor uma música minha. Porque não tentar. Decidi transformar a minha primeira composição numa brincadeira. Durante 12 semanas gravei uma serie de vídeos - que fui partilhando com os meus amigos - intitulado “eu vou compor uma música”. Foi super divertido, e no final lancei (a baixo voo) a minha primeira música intitulada “E se…”.
Ficou o bichinho da composição, mas desta vez decidi pedir ajuda. Frequentei um curso de “Songwriter Producer” no qual descobri as maravilhas dos atuais DAWs e daquilo que, com meia dúzia de equipamentos, uma pessoa consegue gravar e produzir sozinho num sótão ou numa cave.
O “hobbie” da composição musical começou a ganhar importância (e espaço) na minha vida. Fui comprando pequenos e modestos equipamentos. Nada de especialmente caro. Não tenho dúvida de que a qualidade dos equipamentos - dos instrumentos aos microfones - faz diferença quando se quer produzir algo com um som profissional, mas eu queria tentar perceber até onde conseguiria ir com um investimento moderado. Até porque, tenho visto muito gente com imenso talento que usa a falta do “equipamento certo” para adiar a produção. Eu não estava disposto a arranjar desculpas para mim próprio. A tese é: avancemos e depois logo se vê. O pior que poderia acontecer era sair uma porcaria… mas ninguém morre por causa disso. É uma atividade com reduzido risco letal.
Para o efeito, dá jeito compreender o mínimo de teoria musical. Felizmente, o que não falta são MILHÕES de tutoriais sobre o tema... só não aprende quem não quer.
Há quem faça puzzles de 1.000 peças. É giro “chegar ao fim”, mas é ainda mais divertido o processo criativo de construção do puzzle. Nunca demoro menos que 8 a 10 dias úteis a compor uma música - do primeiro rascunho à versão final. Não é algo para fazer à pressa. Felizmente, é algo que não tenho. Não tenho pressa. Apenas tenho pouco tempo. Gosto de ver progressos. É como cozinhar. Gosto (sempre que posso) de ir adicionando mais uma ou duas peças ao puzzle… e começar a ver a coisa a ganhar forma. Até chegar a “algo” com que me identifique e de que goste.
E foi assim que aqui cheguei - música a música.
Espero que gostem.









